Por dez euros estavam sendo oferecidas passagens aéreas entre Paris e Barcelona.  A promoção da Ryanair, primeira companhia aérea de baixo custo a operar na Europa, era restrita a residentes no Espaço Schengen. Carteira de identidade francesa em punho, me habilitei a fazer a compra.

Problema #1: para pagamento no cartão de crédito, era necessário pagar uma taxa de dez euros por pessoa. Detalhe: o cartão de débito local não era identificado. Pula-se para 60 euros os bilhetes de ida e volta para duas pessoas. Ok, ainda mais barato e rápido que o trem.

Para manter o valor da tarifa, deveríamos fazer o check-in online antecipado e levar apenas uma bagagem de mão. Cada inclusão custaria pelo menos mais dez euros.

Após a compra, surge a notícia que a Ryanair estaria cogitando cobrar o uso do banheiro nos aviões, implantando aquele esquema de coletar moedinhas para abrir a porta. Meo, não dá nem para usar um peniquinho de canto e jogar pela janelinha. Oi?

Os vôos saem do pequeno aeroporto Beauvais Tillé, a 85 quilômetros do norte de Paris. Os ônibus que fazem esse trajeto saem do Palais de Congrés e cobram treze euros a viagem de pouco mais de uma hora. Cálculo: 26 euros ida e volta Paris-Beauvais, 30 ida e volta Paris-Barcelona. Mais em conta ter uma empresa de ônibus.

A compra e a identificação para a viagem foram realizadas com a minha identidade  para estrangeiros, o titre de séjour emitido pelo governo francês. O site da empresa informava que deveriam ser apresentados no embarque a carteira de identidade válida para o Espaço Schengen ou o passaporte.

Problema #2: apesar da abolição do controle de fronteiras e unificação dos documentos,  não me deixaram embarcar com o meu titre. Explicação: política da empresa. Nada a ver com a legislação da União Européia. A Ryanair simplesmente não aceita a carta de estrangeiros como documento válido. Para o embarque, não para compra. E te rala, magrão: se perguntar para os policiais do controle de embarque, eles confirmam o direito de escolha da companhia!

Choro, ranger de dentes, gerações almadiçoadas. Para trocar a passagem para o vôo da tarde, eu deveria desembolsar 226 euros. Ainda me auto-flagelando do descuido de não levar até o comprovante de vacinação da minha bisavó na carteira no país que ama a burocracia mais do que o próprio cachorro, voltei para casa e consegui vôo para algumas horas depois por 115,83 na Iberia, taxas inclusas. Aliás, meu presente de aniversário – foram moooitos choros, ranger de dentes, gerações almadiçoadas, cabelos arrancados, vudus de atendentes…

Corremos para o aeroporto de Orly, aquele do samba, que fica dentro da zona 4 de Paris (=perto). O deslocamento desde Montparnasse custa 6,30 euros e leva pouco mais de vinte minutos. Apresentei normalmente a carteira de identidade no embarque da Iberia. Então finalmente chegamos em Barcelona.

Quatro dias depois, chegado o momento de saber qualé a do avião em que não me deixaram entrar. Para chegar ao aeroporto de Girona, gasta-se 1h15 e mais doze euros. Cálculo atualizado: por pessoa, 30 euros em avião, 50 em ônibus. Ainda mais barato que ir de trem.

O avião é um grande ônibus muito amarelo, repleto de propagandas, com anúncios de puteiro nas revistas e aeromoças de unha suja. Aeromoças feias que são incentivadas a posar de biquíni para a revista da Ryanair, que faz matérias com os melhores “gentlemen’s clubs” da Europa. Sozinha, eu estaria mais a vontade num bar de estivadores.

Não há lugar marcado, sobra pouco espaço para bagagem nos compartimentos (pulitika da impreza) e as aeromoças passam com um carrinho vendendo raspadinhas para os passageiros . Faltou um boliviano tocando flauta.

E então, toda aquela frescura com documentos era para isso?

O pior foi o pouso. A avião picou. Parecia que piloto tinha dado com a cara no chão. Peor aterrisagem. Aplaudiram.

A estupidez para o embarque e o freak show do vôo ainda podem ser relevadas,  não os pilotos qualificados em cursos por correspondência. A diferença de preço (mais de 150 euros) até compensa, mas na Ryanair eu não volto mesmo. MEDA

 

Sobre como reduzir custos das companhias aéreas (e não é só no amendoim).


3 Responses to “Baixo custo, baixo nível”  

  1. Já pensou nas garrafinhas de refrigerante 600 ml?!

  2. 2 dani

    ok, o eurail pass foi uma boa idéia. ou ideia. enfim.

  3. 3 Adriano

    Programa 5 cocares na escala Alto Xingú de entretenimento!


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